Como o isolamento social tem impactado a saúde mental das crianças?

5 de abr

Não é nenhuma surpresa que o isolamento social e todo o contexto da pandemia têm gerado um enorme impacto na saúde mental das pessoas. Não é apenas o medo de contrair doença e de que ela afete pessoas próximas, mas a própria mudança na rotina e necessidade de adaptação têm afetado negativamente a população, e isso inclui as crianças.

Elas deixaram de frequentar a escola, precisaram se adaptar às telas e aulas remotas, sem falar que perderam uma grande parte das experiências sociais e afetivas — mesmo com as videochamadas, resta uma lacuna que somente a presença física é capaz de suprir.

Os pequenos, que de modo geral são sempre cheios de energia e disposição, precisaram também encontrar modos de ocupar o tempo dentro de casa, muitas vezes em espaços bastante limitados.

O resultado disso é que, muitas vezes, as atividades físicas foram substituídas por telas e jogos online. Com atividades escolares sendo feitas pelo computador, menos exercícios físico e energia acumulada, as famílias notaram piora no sono e no humor dos pequenos.

Vale apontar ainda que eles nem sempre compreendem bem o que está acontecendo, o que torna a situação ainda mais delicada, pois a ansiedade e a expectativa de voltar à vida normal podem ser mais intensas. Portanto, é fundamental que as famílias construam ambientes saudáveis e acolhedores para que as crianças consigam lidar, da melhor maneira possível, com esse processo.

Esse cenário acende um alerta para um tema que já preocupa especialistas há tempos: a saúde mental das crianças e adolescentes. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), nos últimos 10 anos, houve um aumento significativo nos diagnósticos de depressão entre crianças de 6 a 12 anos, chegando a 8% da população dessa faixa etária.

Apesar de os debates sobre o tema estarem mais amplos nos últimos tempos, ainda é preciso dar muito enfoque a isso, sobretudo considerando o impacto que os transtornos psicológicos têm quando ocorrem em uma fase do desenvolvimento.

Quais os sinais psicológicos e emocionais que a pandemia pode desencadear nas crianças e adolescentes?

Não raro, crianças e adolescentes podem vivenciar momentos de agitação, ansiedade e frustração em meio à necessidade de readaptar suas rotinas devido à pandemia do coronavírus.

Deixar grande parte das atividades e não poder ter pessoas queridas por perto, ainda que temporariamente, é um processo que pode desencadear ou acentuar sentimentos negativos, como o medo e a angústia.

É comum, e até esperado, que sentimentos diversos surjam neste momento, como o tédio, frustração, choro e até irritação, pois, assim como os adultos, as crianças reagem emocionalmente às situações.

Entre alguns outros sintomas emocionais que podem ocorrer estão:

– Desânimo;

– Indiferença;

– Cansaço mental;

– Falta de concentração;

– Sonolência ou insônia;

– Hiperatividade.

Alguns sintomas e sinais físicos são:

– Mudanças no ciclo do sono;

– Alteração de apetite;

– Ganha ou perda de peso;

– Fome exagerada ou ausência de apetite.

Lidar com isso não é tarefa fácil, mas é importante que as crianças tenham espaço para sentir e expressar sentimentos e emoções. Porém, deve haver atenção da família e mesmo da escola em relação à duração dessas situações (como a ansiedade e o desânimo), bem como a intensidade delas.

Quando momentos emocionalmente ruins duram por períodos mais longos do que o comum, ou começam afetar ações da rotina (comer, dormir, brincar), é hora de buscar ajuda profissional e formar uma rede de apoio.

A família deve construir um ambiente acolhedor e de intensa atenção às mudanças no comportamento infantil. O diálogo constante e franco (de modo pertinente e adequado à idade de cada criança) é essencial, de modo que haja acolhimento e proteção afetiva. Nesse caso, a conversa com a escola e mesmo com profissional de psicologia é importante.

A escola também pode servir de apoio aos seus alunos, pois deve atuar de modo articulado à família. Deve dar, então, atenção às atividades, ajustando-as às necessidades de cada família e compreendendo que, no atual momento, há uma série de dificuldades e mudanças ocorrendo (e cada criança vai lidar de uma maneira também).

Como ajudar as crianças durante o isolamento social para preservar sua saúde mental?

Não é tarefa fácil estabelecer uma rotina em meio a este momento que, de uma hora para outra, exigiu que qualquer planejamento fosse remodelado. Porém, recuperar essa organização e adaptá-las à realidade do isolamento social é essencial para preservar a saúde e bem-estar de toda a família, sobretudo das crianças.

Isso, porque os adultos costumam ter mais autonomia e discernimento para a auto-organização, mas essa tarefa pode ser bem complexa para os pequenos caso não haja alguém para auxiliá-los.

Por isso, estabeleça horários que recuperem algumas das atividades comuns de antes, como estudar, brincar, comer e fazer exercícios (este último é essencial e deve ser feito rotineiramente, mesmo que seja dentro de casa).

Manter um diálogo aberto sobre a situação do coronavírus é importante para que as crianças tenham consciência do que está ocorrendo, da importância de se cuidarem e serem colaborativas com o ato de ficar em casa.

Também é importante que os sentimentos e emoções delas sejam respeitados, pois eles podem ser bem intensos e difíceis de serem controlados. Dessa forma, organizar junto às crianças atividades relaxamento (músicas, filmes, brincadeiras) e conversar sobre o estado emocional é essencial.

Caso a família note que os momentos conflituosos ou de emoções negativas estão muito frequentes ou afetando intensamente atividades como comer (perder o apetite ou comer demais), dormir (dormir muito, mudanças acentuados no ciclo do sono ou insônia) ou haja um desânimo persistente, não se deve hesitar em buscar ajuda psicológica.