Como aplicar a disciplina positiva e ajudar a desenvolver a autonomia das crianças?

14 de set

É difícil encontrar um pai ou uma mãe que nunca tenha se questionado sobre o melhor modo de educação as crianças — e não importa se são pais de primeira viagem ou não, a dúvida permanece.

Educar é um desafio, pois cada criança é única e apresenta necessidades e comportamentos diferentes. Assim, não há uma cartilha ou manual da educação, mas tem algumas dicas e métodos que podem nortear pais e mães na construção de relações saudáveis, respeitosas e adequadas para a boa educação e desenvolvimento infantil.

A disciplina positiva é baseada nesses pilares, considerando que educar é um meio de dar subsídios para que as crianças cresçam e se desenvolvam integralmente, entendendo-se enquanto sujeitos que merecem respeito, afeto e compreensão.

O que é a disciplina positiva e como surgiu?

Para entender o que é a disciplina positiva, enquanto método e filosofia para a educação das crianças, é preciso ressignificar o conceito de disciplina.

Ainda que sobretudo nos últimos anos se fale, cada vez mais, sobre as formas de criação mais adequadas, ainda é comum que o termo seja carregado de um sentido negativo — muitas vezes, é compreendido ou associado à punição.

Na verdade, no contexto da disciplina positiva, o ato de disciplinar é uma forma de educar e dar limites, mas sempre associada ao afeto, ao diálogo e ao respeito à criança.

O método foi desenvolvido ainda na década de 1980, pela psicóloga Jane Nelson, que teve como base estudos ainda mais antigos, de Alfred Adler e Rudolf Dreikurs.

De forma geral, o sistema proposto pela metodologia positiva é o de prezar pelo desenvolvimento integral (social, afetivo, cognitivo, motor) das crianças, impondo limites necessários, mas de forma solidária, gentil e significativa.

Assim, há menor resistência delas em relação às obrigações (tomar banho, estudar, comportar-se bem), tornando a relação familiar mais harmoniosa. A centralidade da metodologia positiva fica justamente no diálogo.

Então, elimina-se da educação infantil os atos de impor limites à base da coerção ou chantagem emocional, de ignorar a criança e suas necessidades ou de ser permissivo.

Disciplina positiva não faz perder os limites?

Não! O sistema da disciplina positiva é, justamente, trabalhar os limites, de modo que a criança entenda e saiba lidar com eles, de modo que os aprendizados reflitam de modo positivo por toda a vida adulta.

Mas isso é feito de modo respeitoso e levando em consideração que as crianças também têm necessidades e vontades. Além disso, que elas são capazes de entender as situações e refletir sobre suas ações, o que auxilia no desenvolvimento de sua autoestima e autonomia.

Dessa maneira, dialogar e empregar metodologias positivas na educação faz com que elas entendam o porquê de seus deveres e dos limites impostos — ou seja, os limites não são sinônimos de punição, falta de amor ou incompreensão familiar.

Como a disciplina positiva ajuda na educação das crianças?

Um dos pontos essenciais da disciplina positiva é o desenvolvimento da autonomia da criança, de forma que a disciplina não seja um fim nela mesma, mas sim uma oportunidade de ampliar as capacidades e habilidades sociocognitivas e emocionais.

disciplina positiva auxilia no desenvolvimento das crianças

Ou seja, pais e mães podem aproveitar todos os momentos para reforçar nas crianças o senso crítico e a reflexão de si e do mundo — isso inclui até situações de birra ou resistência dos pequenos.

Para isso, a família deve entender que, muitas vezes, o mau comportamento é um mecanismo de defesa, pois a criança não sabe o que fazer ou como deveria se comportar. Por exemplo, quando ela quer um doce ou um brinquedo e não o recebe, lidar com o sentimento de frustração é um processo novo e difícil de controlar.

Se houver apenas a proibição, sem um diálogo claro do porquê aquele não é momento para ganhar o que ela deseja, é comum que a criança apenas persista na tentativa de conseguir o que deseja.

Ao contrário de gerar um sentimento de punição ou rejeição, o diálogo possibilita que ela reflita sobre a situação e sobre o seu comportamento, tornando as coisas mais claras.

Dicas para aplicar a disciplina positiva na educação do dia a dia

Não existe um manual da disciplina positiva, pois a prática é construída no dia a dia, de acordo com o comportamento da criança e também da família. Então, é importante que mães e pais conheçam as bases desse sistema e, com isso, consigam ajustar suas práticas.

Mas há algumas coisas que não devem ser feitas, como:

– Não gritar ou falar coisas que possam agredir emocionalmente a criança: isso faz com que se crie um ambiente ainda maior de resistência da criança, gerando mais conflito. A disciplina e o respeito não são construídos por meio de gritos que podem, inclusive, machucar emocionalmente a criança;

– Não ignore a criança: quando a criança está conversando ou mostrando algo, é importante que seja ouvida para que não gera sentimentos negativos nela. Nem sempre isso é possível, por exemplo, no meio da uma atividade importante, mas busque o diálogo para explicar que o momento não é oportuno, mostrando interesse sobre o que ela para mostrar ou dizer;

– Não ameace ou faça chantagens: muitas vezes, a ameaça vem em forma de tentativa de um bom comportamento, como “se não arrumar o quarto vai ficar sem brincar”. Isso faz com que os sentimentos de frustração sejam ainda maiores. Em vez disso, opte pelo diálogo, reforçando que a criança é responsável pelos seus atos e precisa colaborar.

Além disso, é importante que algumas coisas sejam parte do dia a dia, pois elas auxiliam diretamente na construção da disciplina por meio do respeito.

– Dê atenção e demonstre afeto em cada interação para que a criança se sinta amada e acolhida, mesmo quando for reprimida por alguma atitude;

– Dê responsabilidades, de forma que ela se sinta parte importante da rotina. Isso também desenvolve a empatia e autonomia, de forma que suas atitudes têm impacto no bem-estar de todas as pessoas;

– Deixe os limites claros, de forma clara sobre tudo aquilo que se espera da criança. Muitas vezes, o mau comportamento é fruto da dificuldade em saber até onde ela pode ir. Então, fica bem mais simples cobrar as responsabilidades quando elas estão bem definidas para a criança e para a família.

Como a disciplina positiva ajuda a desenvolver a autonomia das crianças?

Entender os pequenos como seres com autonomia é essencial para a formação infantil — isso não significa romper com a disciplina e com os limites, mas sim construir um processo de respeito e diálogo entre as crianças e os responsáveis.

disciplina positiva auxilia a criança a ter autonomia

A autonomia se refere à capacidade que uma pessoa tem de tomar decisões, lidar com as limitações e liberdades possíveis. Dessa forma, em vez de reprimir sem justificativa, o diálogo que a disciplina positiva incentiva faz com que pais e mães fomentem a independência e reflexão sobre o próprio comportamento.

Explicar as razões para haver limites faz com que os pequenos entendam os processos, reflitam sobre as consequências e criem a noção de responsabilidade.

Além disso, é uma forma de ensiná-las a lidar com sentimentos — sejam bons, como o entusiasmo, ou nem tanto, como a frustração. Isso faz com que entendam que todos fazem parte da vida.
Assim, desde cedo, as crianças aprendem a administrar a si mesmas, de forma que crescem com maior desenvoltura socioemocional.

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A disciplina positiva é um sistema que entende a criança como sujeito ativo no processo de educação, propondo uma relação de respeito entre ela e os responsáveis. Por meio dela, é possível criar um ambiente harmônico e saudável para toda a família.