Comunicação não-violenta: o que é e como essa prática fortalece vínculos familiares?

27 de jul

A comunicação é a base de toda relação social. No círculo de amizades ou familiar, ter um diálogo claro, expor pontos de vista e dar atenção às formas de expressão são aspectos fundamentais para que haja uma boa convivência.

Pode até parecer óbvio, mas muitas vezes as pessoas não percebem o modo ou os sentidos contidos em suas falas. E mesmo com a melhor das intenções, o modo como uma observação é feita pode gerar conflitos e interpretações indevidas.

Mas é possível transformar esse aspecto, por meio da Comunicação Não-violenta (CNV). Um método, que é uma prática cotidiana, para ressignificar relações e construir conexões mais afetivas e fortalecidas.

O que é a Comunicação Não-Violenta e para quem ela se aplica?

Nos últimos tempos, a Comunicação Não-Violenta tem ganhado destaque. Apesar de parecer algo recente, a metodologia (ou linha de pensamento) surgiu ainda nos anos 1960, criada pelo psicólogo estadunidense Marshall Rosenberg.

Aos poucos, essa perspectiva se estendeu pelo mundo e pode ser empregada para diferentes objetivos: fortalecer laços afetivos, otimizar os processos de comunicação, harmonizar ambientes de trabalho, proporcionar um autoaprendizado e posicionamento empático sobre si e sobre as outras pessoas, por exemplo.

Mesmo que pareçam ser vários objetivos, todos eles são baseados em uma prática de olhar para si e, ao mesmo tempo, em colocar-se no lugar da outra pessoa, buscando aquilo que há em comum entre as pessoas, aquilo que une e cria laços.

É uma forma de construir relações autênticas, por meio da expressão da individualidade, mas também considerando a respeitando a singularidade alheia.

Dessa forma, Marshall estabeleceu 4 princípios que dão norte à prática da CNV:

  • Observação: a ideia é isolar as falas ou expressões dos sentimentos, avaliando o que está incomodando na fala da outra pessoa (ou o que, na sua fala, pode estar causando o conflito);
  • Sentimento: aqui, a atenção é nos sentimentos — como você reage às falas, quais emoções surgem (medo, raiva, insegurança). O foco é dar nome ao sentimento que dá base aos conflitos;
  • Necessidades: buscar a origem do sentimento, ou seja, a necessidade que sustenta ele;
  • Pedido: quase como uma reconfiguração da fala, o pedido visa construir um caminho mais objetivo e eficiente para a ação, com base na necessidade identificada e na construção respeitosa da fala.

Para ficar mais claro, se uma criança fica irritada ao ser informada que precisa tomar banho ou ir dormir, o processo pode ser: a informação de ter que tomar banho gera o conflito (observação), que se expressa por meio da irritação (sentimento), porque a criança gostaria de brincar mais (necessidade). Então, a mãe ou o pai pode esclarecer os motivos e tentar outras táticas de diálogo para um acordo.

Internalizar esses princípios e colocá-los em prática de forma consciente permite uma melhor compreensão de si e das outras pessoas, criando um processo crescente de afeto, compaixão e empatia. Claro que as relações nem sempre são simples, mas a CNV busca ser uma prática cotidiana, de modo que se torna mais simples e natural progressivamente.

Isso permite um diálogo desarmado, leve e claro — o que não significa que a prática estimula o apagamento das vontades ou a passividade, mas sim uma forma funcional e honesta de expressar sentimentos.

Comunicação Não-Violenta com crianças: quais os benefícios?

A Comunicação Não-Violenta tem benefícios quando usada com crianças também, seja nas relações familiares ou escolares, por exemplo. Alguns deles são:

  • Fortalece a noção de respeito e harmonia;
  • Reforça a importância de respeitar a si e às outras pessoas;
  • Cria a noção de honestidade e clareza nas falas do dia a dia;
  • Facilita a participação, dá limites de atividades e horários;
  • Internaliza a importância de observar os próprios sentimentos e de colocar-se no lugar de outras pessoas.

Além disso, a CNV é um modo de argumentar bastante eficaz, que considera as necessidades e sentimentos de todas as pessoas envolvidas, buscando acordos harmônicos. Isso fortalece laços entre as crianças e responsáveis, dá incentivos positivos para o aprendizado, reforça a autoestima e o bem-estar.

Como aplicar a CNV na rotina familiar em meio à pandemia?

A pandemia do novo coronavírus intensificou os sentimentos e emoções, sobretudo das crianças, que geralmente têm mais dificuldades em compreender o que está acontecendo.

Com a suspensão das aulas presenciais e a necessidade de ficarem somente em casa, a agitação, ansiedade, choros e até brigas podem ser mais frequentes. Mas a CNV é uma excelente ferramenta para usar neste momento:

Para amenizar ansiedade e irritação

Em meio a um conflito (brigas, discussões ou crises de irritabilidade), é mais simples lembrar da CNV e colocá-la em prática, já que as emoções (e a expressão agressiva) estão mais identificáveis.

Quando as crianças, ou qualquer membro da família, estiver em um momento de ansiedade e irritação, usando da agressividade ou impulsividade, vale retomar os princípios da CNV. O que está desencadeando aqueles sentimentos e como toda a família pode colaborar para que a situação seja solucionada de forma mais harmônica?

É bastante comum que os pequenas sintam falta de brincar fora de casa ou ver colegas, por exemplo. Nesse caso, essas necessidades estão causando sentimentos de irritabilidade e raiva.

É importante deixar o pequeno falar sobre seus sentimentos e emoções, reforçando que ele deve fazer isso sem magoar outras pessoas — ou seja, ele precisa colocar-se no lugar de quem a ouve.

Para incluir a criança nas atividades e nova rotina

Dar atividades simples (como auxiliar na arrumação da cama ou da mesa) e estabelecer novas rotinas (estudar em casa, tomar banho ou ter hora para dormir) pode ser uma tarefa complicada em meio às mudanças da pandemia.

Mas tudo isso pode ser facilitado com a prática da CNV. Nesse caso, a expressão clara e objetiva dos sentimentos e necessidades do pai ou da mãe é fundamental para que a criança se coloque no lugar alheio e compreenda seu papel por meio da empatia.

Para isso, basta reforçar que todas as pessoas da casa estão colaborando para um ambiente harmônico e saudável, e que ela também faz parte disso. Reforce a importância que a participação dele tem na rotina e o quanto isso é positivo.

Use também táticas para que ele possa se colocar no lugar da outra pessoa, como “você não se sente feliz quando eu brinco junto? Então eu também me sinto feliz quando você arruma seu quarto comigo”.

Para estreitar laços afetivos e fortalecer a autoestima

Expressar de forma clara os sentimentos torna a comunicação mais objetiva e reduz conflitos por interpretações incorretas. Isso, então, resulta em uma aproximação mais afetiva e sentimentos de confiança e segurança.

Dessa forma, as crianças percebem que seus sentimentos e emoções, mesmo que sejam raiva e medo, são compreendidos e que o afeto não seja reduzido por causa disso.

A CNV estabelece reforços positivos, ensina a criança a observar e compreender seus sentimentos e a situá-los em relação às outras pessoas e ao mundo. O que demonstra que é possível respeitar a todas as pessoas, sem apagar os próprios desejos e sentimentos.

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A Comunicação Não-Violenta é uma ferramenta eficaz para a construção de ambientes saudáveis e relações respeitosas. Por meio do reconhecimento de si e das outras pessoas, é possível estabelecer diálogos claros e empáticos, de forma que sejam muito mais eficientes.

Com as crianças, não é diferente. A CNV, sobretudo em meio à pandemia, pode auxiliar na tranquilização e reforço positivo, por meio de mudanças simples e cotidianas.