Pandemia diminui registro de casos de violência infantil

1 de jul

Os canais de denúncia de violência contra as crianças e adolescentes são importantes ferramentas para avaliar a realidade social e aplicar políticas de prevenção e atendimento às vítimas. Entre março e junho de 2019, o Disque 100 (serviço de proteção de crianças e adolescentes com foco em violência sexual) registrou 29.965 ocorrências. Porém, no mesmo período de 2020, a taxa caiu 12%, totalizando 26.416 denúncias.

O que, em um primeiro momento, poderia ser um bom indicativo, reflete uma situação de subnotificação em decorrência do isolamento social exigido pela pandemia do novo coronavírus.

Isso fica ainda mais evidente quando esses dados são comparados com outros, como os de violência contra a mulher e contra os idosos, que aumentaram durante o mesmo período.

Grande parte dos casos de violência contra as crianças e adolescentes ocorre por pessoas próximas do convívio familiar – por vezes, que moram na mesma casa, como pais, tios ou amigos da família.

Nesse momento, a escola ganha um papel fundamental, pois são os educadores ou profissionais que auxiliam nos cuidados dos alunos que acabam notando as marcas de violência. Além disso, muitas vezes, a própria vítima conta sobre o que está sofrendo, geralmente escolhendo pessoas de sua confiança.

É exatamente por isso que houve queda nas denúncias no período indicado, pois a pandemia suspendeu as aulas presenciais, de modo que o convívio entre alunos e educadores ficou mediado pelas telas do computador ou celular, o que dificulta a identificação de muitos episódios de violência física, psicológica ou sexual.

Além disso, como as crianças estão mais tempo em casa, o convívio com o agressor é maior, fazendo com elas próprias tenham dificuldades em encontrar formas de pedir ajuda.

Diante dessa realidade, diversas entidades promovem ações e campanhas que conscientizem os pequenos sobre maus tratos, violações, negligência e violências. O objetivo é, cada vez mais, oportunizar um debate claro e adequado sobre o tema.

E tanto as próprias crianças – que ficam mais alertas sobre cada situação e sabem como agir corretamente caso alguma coisa aconteça – quanto os profissionais e responsáveis são alvo das ações. Estes aprendem a lidar de forma assertiva quando desconfiam ou ficam sabendo de alguma situação assim.

Campanha Defenda-se ganha ainda mais relevância na pandemia

A campanha Defenda-se do Centro de Defesa da Infância do Grupo Marista, tem agido como uma importante ferramenta diante dessa realidade de violação aos direitos da infância e adolescência. A proposta é que as próprias crianças sejam capazes de identificar situações de violência e saibam denunciar de forma correta, buscando um adulto de confiança para reportar o caso.

Essa medida é essencial, sobretudo perante as quedas nos índices de denúncias, que tem uma explicação: como grande parte dos agressores ou abusadores são pessoas próximas da família, às vezes os próprios familiares, a criança tem uma relação de afeto e confiança com ele, de forma que demora para entender a ação como uma violência.

Portanto, quanto antes elas tenham consciência sobre seus corpos e direitos, mais segura estarão.

Mas o foco da campanha não se limita às vítimas, pois, ao buscarem alguém de confiança para relatar uma violência, é importante que elas sejam ouvidas e devidamente encaminhadas.

Por isso, as ações visam também preparar os responsáveis (profissionais da saúde, da educação e todas as pessoas direta ou indiretamente envolvidas com crianças), de modo que saibam acolher os pequenos, mesmo por meio das telas ou conversas remotas.

Saber conduzir e orientar os pequenos é essencial para que as denúncias formais sejam registradas, resultando em dados que apontam para a realidade da infância e adolescência.